Fundador da Revin. Engenheiro de formação, especialista em desenvolvimento de software e produtos digitais.

A dívida nova entra pelo pull request aprovado em quatro minutos
A dívida técnica de software que vai apertar o seu próximo ano foi escrita nesta semana. Entrou no repositório por um agente, passou por uma revisão de uns quatro minutos e foi aprovada porque o teste ficou verde. Para medir o tamanho dela você não precisa de ferramenta nova, precisa de três contagens que cabem numa tarde: quanto do código mergeado nos últimos 90 dias alguém do time explica sem abrir o arquivo, quantos trechos quase iguais nasceram no período resolvendo a mesma coisa em lugares diferentes, e quantas regras de negócio entraram sem que uma pessoa tenha decidido a regra.
Essas três respostas são a sua dívida real, e ela não chega em forma de bug. Chega como prazo. A mudança que levava duas semanas passa a levar seis, o time não sabe explicar direito o motivo, e a explicação honesta é que ninguém no prédio entende o pedaço do sistema que precisa mudar. A conta cai no colo de quem abrir aquele arquivo daqui a uns catorze meses, e essa pessoa provavelmente ainda não foi contratada.

Quando ninguém sabe explicar a regra, a reunião de roadmap vira arqueologia
O CIO Dive publicou ontem que as empresas continuam ampliando a aposta em agentes de código mesmo com resultado abaixo do prometido, citando dado da McKinsey sobre o orçamento de IA estourando na maior parte delas. O estouro do orçamento é a parte que aparece na planilha. O que ele compra aparece bem depois: volume de código entrando mais rápido do que a capacidade do time de entender o que entrou.
O The New Stack publicou uma conta que dá forma a isso. Com IA, o volume de código cresceu uns 25%, e a duplicação subiu 81%. O primeiro número vira slide de trimestre. O segundo aparece no dia em que uma regra de comissão muda e você descobre que ela está escrita em quatro lugares, com três comportamentos ligeiramente diferentes, e que o teste de cada um deles passa. Já escrevi aqui sobre o que medir quando o time entrega mais código e o produto não anda, e a diferença agora é de velocidade: o mesmo erro de fundação, produzido em escala industrial.
Essa é a dívida técnica de software no sentido que importa para quem toca o negócio. Custo, prazo e receita presos num detalhe que não aparece em nenhum relatório de engenharia.
Depois dessas três contagens a conversa deixa de ser sobre qualidade de código e passa a ser sobre risco, que é a língua em que diretoria decide. A parte da dívida que não está no código, e que é a mais cara de todas, eu tratei em como medir a dívida cognitiva do time.

Quem abrir esse arquivo daqui a catorze meses não estava na sala quando o agente escreveu
Contei as ramificações de um serviço de preço que herdei: 1.043 condicionais. No último ano, 34 delas mudaram, perto de 3%. As outras estavam lá porque alguém, em alguma reunião, precisou atender a um caso específico e não escreveu em lugar nenhum qual era o caso. Esse serviço foi construído por gente, ao longo de anos. Um agente produz o mesmo volume em semanas, com uma diferença que muda tudo: o autor não pode ser chamado na mesa para lembrar.
Eu vivo isso dos dois lados. Sou fundador da Revin e também gerente de tecnologia numa empresa listada, cuidando de dois ecossistemas grandes onde o meu papel é abrir caminho para o time executar. O pedido que chega na minha mesa quase nunca é "refatora aquilo". É "por que isso agora demora tanto". São a mesma frase, ditas com uns doze meses de distância. E o momento de decidir onde a regra vai morar, no código, num motor de regras ou na planilha do financeiro, é antes do agente escrever, não depois.
Escreve. E é exatamente aí que a conta engorda sem disparar alarme. O teste gerado cobre o que o modelo entendeu do seu código, que é uma coisa, enquanto o que o seu negócio precisa garantir é outra. Já vi cobertura alta sustentada por teste sem expect: o arquivo roda, o número sobe no painel, e nenhuma asserção verifica nada. A métrica existe, a garantia não.
O efeito prático disso aparece em dois momentos ruins. No incidente, quando o time descobre que a suíte inteira estava verde enquanto o cliente não conseguia fechar a compra. E na mesa de auditoria, onde o código que passa no pitch reprova na due diligence porque ninguém consegue demonstrar como a regra que sustenta a receita foi validada.
Três mudanças baratas, que não exigem parar o roadmap:
Nada disso torna o agente mais lento de um jeito que apareça no gráfico. O que muda é quem fica com a informação: o time, e não o histórico de conversa de uma ferramenta que você talvez nem use no ano que vem.
Se você tem três pessoas, nenhum contrato grande assinado e está tentando descobrir se o produto tem mercado, ignore quase tudo aqui. Nessa fase a dívida é escolha consciente e velocidade vale mais que rastreabilidade. O que vale é saber o prazo de validade dessa escolha: ele vence no dia do primeiro contrato que exige auditoria, integração com ERP de cliente grande ou SLA escrito. Aí a conta que você adiou vira o item mais caro do trimestre, e o prazo de resposta ao cliente vira aquela conversa desconfortável que eu descrevi em "quanto tempo leva" era a pergunta errada.
Na próxima revisão de trimestre, antes de aprovar mais assento de agente, pergunte quanto do código que entrou nos últimos 90 dias o time consegue explicar sem abrir o arquivo. Não peça relatório, peça a conta na hora, com os dez pull requests sorteados na frente de todo mundo.
Se vier silêncio, você acabou de descobrir o tamanho da sua dívida técnica de software, e ainda em tempo de cobrar barato. Se vier resposta firme, você comprou velocidade de verdade, e vale dobrar a aposta. O que não dá é seguir decidindo pelo número que sobe no painel enquanto a parte cara cresce fora dele.
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