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O time que te venderam não é o time que vai te entregar

Todo portfólio é uma edição, e todo pitch escala os sêniores que você nunca mais vai ver. Vejo founder assinar com fornecedor de fora olhando o slide e só conhecer os autores reais do próprio código dez meses depois, no git. Aqui vai como conferir quem entrega antes de a caneta encostar no papel.

Por Raquel Reis

Analista de dados, pós-graduada em Ciência de Dados e engenheira eletricista de formação.

Semana passada um founder me mandou dois arquivos no mesmo e-mail, quase sem escrever nada no corpo. O primeiro era o deck com que uma agência tinha ganhado o contrato dele no ano passado: sete nomes sêniores, três com foto de palestra, um case de um app que qualquer um no Brasil reconhece. O segundo era o git blame do produto dele, dez meses depois de assinar. Oitenta e dois por cento dos commits saíam de dois logins que ele nunca tinha visto numa reunião.

Ele perguntou se aquilo era normal. Respondi que vejo com uma frequência que me incomoda, e que quase ninguém confere isso antes de assinar. Menos ainda quando o fornecedor fica num país que você provavelmente nunca vai visitar, num fuso em que a maior parte das combinações acontece por escrito.

Se você contrata engenharia fora do seu país olhando proposta, portfólio e uma chamada de vendas simpática, esse texto é sobre a pergunta que costuma faltar nessa conta: quem, exatamente, vai escrever o seu código depois que a caneta encostar no papel?

A caneta que assina o contrato quase nunca é a mão que vai escrever o código.

A caneta que assina o contrato quase nunca é a mão que vai escrever o código.

O elenco do pitch é emprestado

Uma proposta é um evento comercial, e todo evento comercial tem um objetivo só: fechar. Para fechar, você coloca na sala as pessoas mais impressionantes que tem à mão. Isso, sozinho, não é desonestidade. É como quase toda venda de serviço funciona, da consultoria à empreiteira.

O problema começa depois. A pessoa que brilhou na chamada é um recurso escasso, e recurso escasso é dividido entre muitas vendas. Passada a assinatura, ela migra para o próximo pitch, e a sua conta cai para quem estiver livre no calendário. É um elenco de trailer: o que aparece na estreia some quando o filme começa.

Num squad gerenciado, como o que a gente monta na Revin, a composição vai escrita no contrato, com nome e senioridade de cada pessoa. Não é burocracia. É a forma de garantir que o combinado não dependa de quem estava com a agenda vazia na semana da venda.

O que o deck nunca mostra

Todo portfólio é uma edição. A agência escolhe os cases que ficam bem na foto e omite o resto, o que é justo. Fica injusto quando a edição esconde três coisas que mudariam a sua decisão.

  • Case sem escopo: "trabalhamos com a marca X" pode ser um desenvolvedor alocado por seis semanas num produto que já estava de pé.
  • Portfólio sem link vivo: print de tela não é software no ar. Peça a URL e o nome de quem tocou aquilo.
  • Time de especialistas sem nomes: adjetivo não é composição, e senioridade que não cabe no contrato costuma não caber na entrega.
  • Subcontratação silenciosa: parte do que você paga pode ser repassada a um terceiro que nunca entrou numa call com você, e o seu código passa por mãos que não estão em contrato nenhum.

De longe, a fronteira ajuda a esconder tudo isso. Você não liga para o cliente anterior porque ele está a nove horas de distância, ocupado, ou porque o contato que veio no slide simplesmente não atende.

Quem escreve o seu código no terceiro mês raramente é quem apareceu na chamada de vendas.

Quem escreve o seu código no terceiro mês raramente é quem apareceu na chamada de vendas.

A conta chega como senioridade fantasma

O prejuízo desse arranjo não aparece na fatura. Você paga tarifa de sênior e recebe entrega de júnior sem revisão, porque o sênior que revisaria está vendendo em outro lugar. O código anda, mas anda torto: PR gigante aprovado em dois minutos, mesma função copiada em três telas, teste que ninguém escreveu.

No caso da logística que abriu esse texto, a gente estimou o retrabalho dos primeiros dez meses em algo perto de R$ 190 mil. Puxei esse número para baixo de propósito, porque parte era refatoração que eles fariam de qualquer jeito. Mesmo cortando um terço, continua caro demais para um problema que nasceu numa reunião de vendas.

Quando a gente assume um produto assim no Diagnostic Sprint, a primeira leitura já entrega a assinatura de quem escreveu antes: dá para ver, no histórico, onde tinha gente sênior de fato e onde alguém aprendeu na sua base.

A distância vira problema quando esconde o time

Preciso ser honesta aqui, porque o argumento fácil seria "desconfie de fornecedor de fora", e esse argumento é preguiçoso. Eu trabalho num fornecedor que é "de fora" para boa parte dos nossos clientes, que estão nos Estados Unidos e no Reino Unido. A distância, sozinha, não diz nada sobre a qualidade.

A opacidade é que pesa. A distância só machuca quando esconde quem faz o quê. Um fornecedor a três fusos que te dá acesso ao repositório no primeiro dia, mostra quem commita e responde por cada entrega está mais perto, na prática, do que a agência da esquina que some depois do almoço. O que você precisa é enxergar o trabalho, aconteça ele onde acontecer.

🔎 Como conferir que o time do pitch é o time do código

Dá para blindar boa parte disso antes de assinar, e nenhuma das checagens é cara. A primeira é pedir os nomes e a senioridade de cada pessoa dentro do contrato, não no slide. Fornecedor sério escreve; quem foge te responde com "nosso time de especialistas".

A segunda é combinar acesso ao repositório desde o primeiro dia e olhar, de verdade, quem aparece no histórico nas primeiras semanas. Se os nomes do commit não batem com os nomes do pitch, você já tem a conversa que precisa ter cedo, quando ainda dá para corrigir.

A terceira é a checagem de referência que quase ninguém faz: falar com um cliente atual do fornecedor, não com o logo no slide. Vinte minutos com quem está no meio de um contrato revelam mais do que qualquer estudo de caso.

E a checagem mais honesta de todas é trabalhar junto antes de casar. É por isso que a gente vende duas semanas de Diagnostic Sprint antes de qualquer contrato longo: as pessoas que fazem o diagnóstico são as mesmas que ficam se você seguir com a gente. Não existe time de vendas e time de entrega separados.

A pergunta que cabe antes da caneta

O founder da logística ainda está com a gente, reconstruindo o que dava para reconstruir. Ele me disse uma coisa que fiquei pensando: comparou seis propostas linha por linha, planilhou preço, prazo e stack, e não perguntou uma vez sequer quem ia teclar.

Todo mundo compara o preço da proposta. Quase ninguém pergunta quem senta para escrever o código todo dia, e é essa segunda resposta que decide como vai ser o ano.

E não, nem todo projeto precisa desse cuidado. Se o seu "sistema" é um site institucional de cinco páginas, contrata um bom freelancer e segue a vida; A-team e B-team dão no mesmo quando o trabalho é pequeno e acaba rápido.

Se quiser ver quem de fato aparece nos nossos projetos, os cases estão em revin.com.br/pt/cases, com nome de produto no ar e não print de tela. E se você já tem uma proposta na mão e quer conferir se o time do slide é o time do commit, marca uma conversa com a gente antes de assinar.

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