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Opinião

O mainframe segue de pé com agente de IA em cima. E o seu sistema de 2019?

O CIO Dive publicou que agentes de IA sustentaram a confiança das empresas no mainframe. As três medições que dizem se o seu sistema é legado, e o que fazer com cada uma.

Por Victhor Araújo

Fundador da Revin. Engenheiro de formação, especialista em desenvolvimento de software e produtos digitais.

A plataforma que o mercado chamou de obsoleta continua respondendo o que fez ontem

A plataforma que o mercado chamou de obsoleta continua respondendo o que fez ontem

A data em que um sistema nasceu não diz quase nada sobre o risco que ele carrega. O que diz cabe em três medições que você faz hoje à tarde: dá para saber o que aquele sistema fez ontem sem alguém abrir o banco na mão, existe um nome humano que responde por ele quando quebra às duas da manhã, e ele sobe do zero numa máquina limpa sem depender de um passo que ninguém escreveu. Passou nas três, você tem um sistema antigo. Falhou em duas, você tem legado, mesmo que o primeiro commit seja de 2019.

O CIO Dive publicou hoje a matéria "AI adoption helps sustain confidence in the mainframe", apoiada na pesquisa anual da BMC. A leitura curta: as empresas colocaram agentes de IA para ajudar a manter a plataforma, e a confiança nela continuou de pé enquanto a modernização corre em paralelo. Uma máquina que o mercado chama de obsoleta desde antes de existir smartphone ganhou ferramenta nova por cima e ficou mais confiável. Guarde a cena, porque ela derruba a desculpa mais comum que chega aqui em call comercial.

Idade é dado de cadastro, não diagnóstico

Reconstruir o pedido de ontem pelo log é a primeira das três medições

Reconstruir o pedido de ontem pelo log é a primeira das três medições

"Esse sistema é de 2019, já está legado." Escuto isso quase toda semana, e quase nunca vem uma medição junto. Vem uma sensação: o time novo não entende o código, o fornecedor anterior virou as costas, ninguém quer assinar embaixo do que está rodando. A sensação é real e sai cara. Ela só não tem relação nenhuma com o calendário.

O mainframe é a prova mais teimosa disso. São plataformas com décadas de operação em banco, seguro e folha de pagamento, rodando transação que não pode errar centavo. Elas seguem de pé por motivos chatos: registro de tudo o que acontece, gente formada para operar aquilo, procedimento escrito, janela de mudança com responsável de nome e sobrenome. Foi em cima dessa base que o agente de IA entrou para ajudar na manutenção. Funciona porque tem o que ler. Nenhum agente melhora um sistema que não conta o que fez.

E aqui vale a piada triste do outro lado do balcão: tem empresa com stack de dois anos, container, pipeline bonito, painel verde na TV da sala, que não consegue responder qual foi a última alteração que mudou o valor do frete. O mainframe responde.

As três medições que decidem se você tem legado

Essas são as perguntas que eu faço antes de olhar uma linha de código, quando alguém chega pedindo reescrita:

  • Instrumentação: se um pedido saiu com desconto errado ontem, você consegue reconstruir o caminho dele pelo log, com horário e com o valor que entrou em cada etapa, sem pedir para um dev rodar consulta no banco de produção. Quem depende de consulta manual no banco não tem monitoramento, tem plantão.
  • Responsável: escreva o nome de quem explica a regra de comissão sem abrir o código. Se o mesmo nome aparecer em quatro linhas da sua lista de sistemas, esse nome é a coisa mais cara que você tem, e o risco não está no repositório, está na agenda de férias dele.
  • Reprodutibilidade: alguém clona o repositório numa máquina que nunca viu aquele projeto e sobe o ambiente lendo só o que está escrito. Se o passo que falta mora na cabeça de uma pessoa, o sistema já é legado, tenha ele três anos ou trinta.

Das três, a que mais assusta founder é a primeira, e a que mais custa dinheiro é a segunda. Não sei se essa ordem vale para um time de três pessoas onde todo mundo escreveu tudo. Vale, e muito, a partir do momento em que o time troca.

O `/health` que devolve 200 e não olha nada

Quando o mesmo nome aparece em quatro linhas da lista, o legado é a agenda dele

Quando o mesmo nome aparece em quatro linhas da lista, o legado é a agenda dele

Meu exemplo favorito de casca podre é o endpoint de saúde que responde 200 sem verificar coisa alguma. Ele não consulta banco, não testa fila, não pinga integração. Devolve 200 porque o processo está vivo. Em cima dele vem um painel colorido, com gráfico de disponibilidade em 99 e alguma coisa por cento, e a diretoria dorme tranquila. O irmão gêmeo disso é o teste sem expect: a cobertura marca 80%, o teste roda a função, não afirma nada sobre o resultado, e o relatório fica verde.

Métrica existe, garantia não. É isso que faz um serviço de 2019 ser mais legado que uma plataforma de 1994: o de 1994 tem contabilidade do que aconteceu, e o de 2019 tem enfeite. Vale ler junto o que já escrevemos sobre a falácia do sistema perfeito, porque software estável e software instrumentado são coisas diferentes, e só a segunda sobrevive a troca de time.

"Mas o meu caso é diferente: só uma pessoa aqui sabe mexer nisso"

Essa é a objeção que aparece em toda conversa, e ela merece resposta direta: seu caso não é diferente, é o mais comum. Concentração de conhecimento é a forma de legado que menos aparece em auditoria técnica e mais aparece na conta.

O efeito prático é banal. A pessoa que sabe vira gargalo de toda decisão, o planejamento passa a esperar por ela, e o valor da hora dela sobe porque o mercado percebe antes de você. Se você quer dimensionar essa conta, olhe primeiro a faixa de salário de desenvolvedor no Brasil em 2026 e depois multiplique pelo tempo em que o roadmap ficou parado esperando uma pessoa voltar de férias. Ninguém coloca essa linha no orçamento, e ela é maior que a licença que você cortou no trimestre passado.

A saída não é heroica. É escrita. Quando alguém herda um sistema legado sem documentação, as duas primeiras semanas decidem o ano inteiro, e quase todo o trabalho útil desse período é registrar o que só existia em conversa de corredor.

O mainframe teve orçamento de manutenção. O seu sistema teve preço fechado.

Aqui está a parte que ninguém gosta de ouvir. O mainframe chegou instrumentado até 2026 porque alguém pagou manutenção durante trinta anos, com contrato, procedimento e gente responsável pela plataforma. Ele nunca foi barato, e é justamente por isso que continua funcionando.

A maioria dos sistemas que chegam aqui nasceu do modelo oposto: preço fechado, escopo travado no papel, nenhuma previsão de continuidade. Esse modelo incentiva o fornecedor a entregar o que passa na demonstração e virar as costas. Log estruturado não aparece na demonstração. Documento de operação não aparece. Teste que realmente afirma alguma coisa não aparece. Some tudo o que não aparece na demonstração e você tem a lista exata do que faltou no seu sistema de 2019.

É por isso que a nossa resposta padrão para "ninguém entende mais esse código" quase nunca é começar do zero. Já expliquei em detalhe por que quase nunca aprovo reescrever um sistema do zero: a reescrita congela receita por meses e devolve, no melhor cenário, o mesmo produto sem instrumentação nenhuma. Com squad sênior embarcado, o caminho é outro. Primeiro você para o sangramento visível, depois instrumenta para saber onde ele nasce, e só então discute qual pedaço vale trocar. Estancar é rápido. Descobrir a origem demora mais. Tratar é remédio de meses, e quem promete diferente está vendendo demonstração.

O agente de IA entra bem exatamente nessa ordem, e não antes. Ele lê log, correlaciona alerta, sugere a mudança pequena, propõe teste. Em cima de um sistema que não registra nada, ele produz palpite com aparência de certeza, que é a pior coisa que você pode colocar perto de um código que mexe em dinheiro.

O que dá para fazer até sexta

Escolha o sistema que mais aparece nas suas reuniões sobre dinheiro. Responda as três perguntas por escrito, com nome e data ao lado de cada resposta: quem reconstrói o que ele fez ontem, quem explica as regras sem abrir o código, quem já subiu esse ambiente do zero neste semestre. Leva uns quarenta minutos e não precisa de fornecedor nenhum.

Se as três respostas tiverem o mesmo nome, você descobriu qual é o seu legado, e ele não tem nada a ver com a data do primeiro commit. Uma empresa qualquer conseguiu manter uma plataforma de décadas confiável a ponto de colocar agente de IA cuidando dela. Qual das três perguntas o seu sistema de cinco anos responde hoje sem chamar uma pessoa específica no WhatsApp?

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A cada quinze dias. As decisões técnicas que tomamos, e o que aprendemos.